Krista Vernoff sobre vida, morte e "Six Days, Part 2"
Foi ao ar, nos E.U.A., em 18/01/07

A mensagem no final do episódio que dizia “In memory of Bob Verne” (“em memória de Bob Verne”) foi uma homenagem ao meu pai. Ele morreu há 6 anos aos 56, após uma curta batalha contra o câncer de esôfago. Ele me ligou um dia no meu escritório de Charmed e me disse que estava gripado. Uma semana depois ele fez uma operação para a retirada de um enorme tumor no esôfago. Antes da cirurgia ele estava rindo e comemorando com a família. Ele tinha uma atitude muito positiva. Depois da cirurgia, ele ficou com uma enorme cicatriz na barriga; estava entubado e muito pálido e, depois de vê-lo assim, eu, que me julgava forte e entendida e capaz de agüentar aquela situação, comecei a tremer e hiperventilar e tive que ser retirada do quarto com ajuda.
Durante a semana em que esperamos pela recuperação aprendemos que o funcionamento do rim era de extrema importância e eu fiquei obcecada, absolutamente obcecada, pela urina dele. Eu checava o saquinho da urina umas 50 vezes por dia.
A uma certa altura, os médicos juntaram a família para dizer que ele estava com problemas no tubo para respiração, e que talvez não conseguissem botar um novo. Eles nos disseram que devíamos nos preparar para a possibilidade de que era o fim da linha. Ficamos esperando no corredor, prendendo a respiração, apavorados. Lá havia uma outra família, de um menino de 16 anos que havia sido baleado na rua, quando saía do trabalho e ia pra casa, no que parecia ter sido uma briga de gangues. A família insistia que ele era um bom menino, que não fazia parte de nenhuma gangue. Eles estavam com tanto medo quanto nós, enquanto esperavam por notícias. Conversamos com eles por um tempinho, papo furado, até que caiu o silêncio. Após uma longa e pesada pausa, um dos adolescentes da família olhou para um membro da minha família com uma expressão perturbada. E então disse: “Caraça, alguém peidou. E acho que foi esse velho aqui.” Minha família riu mais do que nunca. E meu pai sobreviveu à reintubação.
Ele viveu mais três dias.
Quando o cirurgião sentou conosco e disse que era hora de deixá-lo ir, ele nos explicou que papai tinha ido a ele – pelas nossas costas – a caminho da sala de operação, e implorado que ele retirasse o tumor, acontecesse o que acontecesse. Meu pai acreditava, de verdade, que ele conseguiria lutar contra o câncer, que ele sobreviveria, se eles tirassem o tumor. O médico fez o que lhe foi pedido. E ainda tenho que perdoá-lo completamente por essa decisão. Pois o corpo de meu pai estava infestado de câncer. E ele ainda tinha problemas no fígado e no coração. Não havia a menos condição de ele se recuperar de uma cirurgia tão traumática. E o cirurgião sabia disso. Eu acredito no perdão, de verdade. Acredito piamente que ressentimento leva a doença e miséria espiritual. Mas também acredito que o cirurgião abriu meu pai ao meio porque ele queria praticar. Não era a melhor opção. Ele sabia bem disso. Meu pai, não. A cena em que George grita com Bailey e Richard – essa cena não aconteceu na minha vida. Filmar essa cena foi uma realização pra mim. O que aconteceu na minha vida foi que nós fomos até meu pai, na UTI, colocamos nossas mãos em seu corpo e cantamos músicas dos Beatles enquanto as enfermeiras desligavam os aparelhos. Quando as enfermeiras tiraram os tubos de sua boca, eu e minha irmã nos aproximamos de sua boca para sentirmos seu último suspiro. E então ele morreu. Eu me tornei membro do Clube dos Pais Mortos.
Eu sei que você não queria que a gente matasse o Sr. O’Malley. Acredite, eu sei. Ele era divertido e carinhoso e gentil e muito novo e muito feliz para morrer, assim como meu pai. Ele tinha filhos e uma esposa que o amava muito e precisava dele, assim como meu pai.
Às vezes a vida é uma droga. Às vezes, cirurgia é uma droga. (Aliás, como Balei e Richard são Bailey e Richard, eu não acho que eles fizeram o que fizeram por nenhum motivo além do mais honrável. Acho que eles foram persuadidos pelo apelo do Sr. O’Malley. Acho que eles se sentiram na responsabilidade de honrar seus desejos mesmo se achassem que era a decisão errada. Mas, mesmo assim, às vezes cirurgia e cirurgiões são uma droga.) Tem sido difícil pra mim trabalhar num programa que pela sua natureza idealiza a medicina ocidental e cirurgias. Eu acredito em ambos, mas apenas como um último recurso. Porque eu acredito (e as estatísticas me apóiam) que cirurgia faz mais mal do que bem. Então, o motivo de eu não ter escrito nenhum episódio desde o 3.02 é que eu fiz questão de escrever esse. Eu sabia a história que eu queria contar.
Sinto muito por ter sido tão difícil de assistir – mas eu acredito que onde há escuridão, há luz. Acredito que da morte, vem vida. Acredito que, face à dor, famílias se unem. Amizades se aprofundam. Vidas ficam mais doces. E acredito que é importante se lembrar da perda do amor para que valorizemos e honremos o amor que temos, enquanto o temos.
Espero que vocês façam isso.
Espero que, se vocês se comoveram com o episódio, o usem como inspiração para ligar para seu pai, ou sua mãe, ou avós, ou irmãos, ou um amigo, ou um professor, e os agradeça por estarem em suas vidas e digam o que eles significam pra vocês.
Se vocês não se comoveram com o episódio, e só querem me escrever mensagens de ódio, tudo bem, também. É sua escolha. Nós só temos uma vida para viver. Ou, talvez, a gente reincarne várias vezes. Não sei. Mas, como para o Burke, pela minha experiência, ciência não é o suficiente. Pra mim, tem a ver com fé. Algum tipo de fé. Qualquer tipo de fé.
Então talvez, enquanto vocês ligam para familiares ou me mandam mensagens de ódio, vou fazer um esforço e tentar, mais uma vez, perdoar o cirurgião do meu pai...
Tudo de bom,
Krista

PS: a vocês que ficam escrevendo e implorando por sexo selvagem e gratuito de Mer/Der? Uma palavra: suja. Vocês têm a mente suja, muito suja! E eu não estou dizendo que isso seja ruim...
PS 2: vocês não estão contentes pela bebezinha Laura estar bem? Eu estou. Pois, como vocês sabem, estou esperando um bebê para o dia 17 de março. E outra coisa que é difícil pra mim, na série, é que, por necessidade, há vários casos traumáticos sobre bebês e partos. Eu li um livro que me ajudou a superar o medo que essas histórias colocaram em mim – se chama “A Guide to Childbirth” (“Um guia para o parto”), de Ina May Gaskin. Se vocês está grávida, ou conhece alguém que esteja, ou pretende engravidar, você devia ler. É tão tão tão bom. Okay, agora acabei. Tchau.)
Por Anonymous @ 10:49 PM _ _ link desse tópico

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